Mostrar mensagens com a etiqueta crítica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crítica. Mostrar todas as mensagens

01 outubro 2009

at the cut, vic chesnutt

antes que possamos sequer pensar em respirar, vic chesnutt atira um repetido 'i am a coward'. abrem.se as hostilidades.
a luz continua desligada, como tem sido norma desde que vic começou a fazer música. trinam as guitarras. tudo na mesma. o mesmo aperto. ao perto, na ponta dos dedos, bob dylan. ao longe, à sombra da tensão, elliott smith, que partiu cedo de mais.
mas o novelo lo fi continua a ser desenrolado em 10 actos. não há imperfeições, tudo bate certo. e não se trata de cosmologia, trata.se de escolher as notas certas para as palavras erradas. e desde que elliott smith, que partiu cedo de mais, que não há mais ninguém a querer fazê.lo. at the cut, felizmente, serve para nos relembrar da estreiteza do songwriting: 'when my mom was cancer sick/she fought but then succumbed to it/but you made her beg for it'.
fala com a morte como quem fala com deus. e isso, por si só, serviria para fazer deste seu mais recente álbum exemplo perfeito de um artista sobrenatural.

aos 18 anos vic ficou paraplégico. vai a caminho dos 45 e continua a fazer álbuns.
cobardes somos nós.

10 setembro 2009

dona ligeirinha ep, diabo na cruz

sou facilmente corrompível. basta dizerem que a minha opinião vos interessa e dou.vos trela para uma semana. o jorge cruz corrompeu.me. e como é que eu poderia não me deixar corromper por um tipo que conta a estória da sua vida daquela maneira?
a gentileza do jorge vai.me servir, sobretudo, para algumas considerações sobre a música folk portuguesa.
goste.se ou não daquilo que significa o percurso ascendente da flor caveira nos últimos 2 anos, não podemos deixar de ir ao centro da questão. estes senhores estão a redescobrir portugal. com maior ou menor ortodoxia e com maior ou menor perspicácia, a flor caveira parece apresentar.se como um movimento a querer refundar a música portuguesa. não interessa para aqui se gosto ou desgosto do b fachada ou do tiago guillul: abstraio.me dos nomes e vejo a ideologia. ou, se quiserem, um ideário de combate, vulgar acção.
essa opção, mais do que um capricho, parece.me resultar do facto de sermos orfãos de movimentos substanciados, em geral, e da folk, em particular. ao contrário de países como os eua ou a inglaterra, que ostentam percursos lógicos na música popular, em portugal encontramos sempre as coisas um pouco avulso. nunca tivemos um dylan ou um nick drake a definir os zeitgeist. e um zappa ou um tom waits para os desconstruir. o nosso gosto andou sempre a reboque do fado, a nossa música popular andou sempre atrás do que nos chegava do reino unido, e a nossa folk derivou, por culpa óbvia da condição política, para a canção de intervenção. não me interessa agora discutir se nos saímos melhor ou pior. mas, de facto, não atingimos a consistência produtiva de outros países e nem a fase pop-atira.me-água-benta pode ser equiparada a um verdadeiro movimento. isso transpirou para os dias de hoje e estes músicos estão a fazer o que, provavelmente, devia ter sido feito depois da morte do antónio variações ou do fim dos heróis do mar.

os diabo na cruz, um supergrupo da flor caveira, estão a fazer com a folk aquilo que o joão coração faz com a chamada canção de autor. ou o que os golpes estão, noutro espectro, a fazer com a pop. redescobrir portugal em 2009. para mim um ep é sempre uma amostra pouco convincente. mas os 8 minutos de dona ligeirinha ep levam.me a uma conclusão. os diabo na cruz concorrem a um espaço que outros grupos já tentaram preencher. nenhum deles foi particularmente bem sucedido, sobretudo porque fazer música folk exige resolver os fantasmas que ficaram para trás e acertar na maneira de projectar música para o futuro. é claro que alguns venderam uns discos e acabaram por fazer uns quantos concertos, mas não deixaram uma marca que eu considere significante. para os diabo na cruz a balança pode, invariavelmente, tender para dois lados. eu diria que a primeira metade do álbum é agradável e enérgica - surpreendeu.me a dimensão escrita do álbum e os padres comem putos e os putos comem ratos será a frase do ano. a segunda metade do álbum deixa.me inquieto. fico a pensar o que é que poderá vir daqueles lados se a opção dos diabo na cruz for a de encetar uma revisitação da música portuguesa via corridinho do verão.
se fosse eu era por aí que seguia.
está lá tudo o que é preciso.

07 outubro 2007

white chalk, pj harvey




o ano não podia terminar sem um álbum assim.
depois dos the national nos terem relembrado o prazer das canções pop de toada melancólica, de panda bear ter dado mais um novo sentido à música rock e dos animal collective nos terem oferecido um dos mais espantosos ensaios para uma nova linhagem da música contemporânea, depois de tudo isto, só faltava mesmo um álbum negro como white chalk.
o novo avanço de pj harvey, que segue uma linha de construção semelhante à que originou muitas das belíssimas canções do seu antecessor é, de facto, um álbum estarrecedor. sem grandes surpresas a não ser as linhas mais densas com que se cose, white chalk não deverá agradar a muito boa gente.
primeiro porque não tem singles fortes. ou melhor, dada a conjuntura não tem sequer aquilo que se possa dizer, a bem da verdade, uma música talhada para o éter ou para os videoclips da mtv. white chalk é composto de momentos que parecem localizadas num limbo que só a própria poderá esclarecer.
existe um fio ao longo do álbum que já o sentimos anteriormente em música de gente como elliott smith, beth gibbons ou scott walker. é um fio que não esclarece acerca da sanidade emocional de quem o traça, mas que, em termos de resultados palpáveis revela a melhor música jamais feita. o que é que eu estou a tentar dizer? quer white chalk parece o álbum de alguém que, se não está empenhado em morrer brevemente, parece.
white chalk é um álbum feito de uma tensão muito pouco saudável. é um álbum sem luz ao fundo do túnel, feito de canções de curta duração extraordinariamente introspectivas a fazer revelar uma pj harvey como jamais a havíamos conhecido. longe vão os tempos da exploração indiscriminada das guitarras de dry ou rid of me ou até do pesar circunstancial de to bring you my love ou is this desire?
a trilogia que agora completa um novo ciclo (stories from the city, stories from the sea e uh huh her incluídos) revela.nos uma polly jean cada vez mais crua e cada vez menos agarradas a chavões de imagem ou limites para a árdua tarefa de fazer rock.
um álbum fantástico.

8.7/10

08 setembro 2007

liars, liars


os liars são aquela banda que começou por fazer um álbum onde, para além de um single fortíssimo e de duas ou três canções orelhudas pouco mais havia a registar. deduzia.se, em they threw us all in a trench and stuck a monument on top, que, para além de uma invulgar capacidade de dar nomes às coisas, os liars nunca iriam ser mais do que uma banda agarrada a um movimento de circunstância, um pouco mais garage que os restantes, mas com as mesmas bases de construção. o segundo álbum - they were wrong, so we drowned - o primeiro com uma sustentação conceptual definida, é uma grande seca, há que dizê.lo. a partir daí clarifiquei que os liars eram pouco mais do que uma banda desinteressante que se levava demasiado a sério sem ter o conhecimento para isso.
no entanto em 2006 fui atraído pela capa de drum's not dead, o terceiro long play da banda. comprei.o.

e foi, sem dúvida, a melhor aposta do ano que passou. com drum's not dead os liars escreveram uma página importante na definição de uma nova ordem do rock, sobretudo do norte-americano.

liars, o novo álbum, está uns pequenos furos abaixo do seu antecessor. hoje em dia os liars não são tão surpreendentes como o eram há um ano atrás, apesar de se terem aventurado por um caminho que, de alguma forma, regressa às origens que fizeram de ny a capital do rock. não é de estranhar que ao ouvirmos os liars em 2007 nos lembremos de como deveriam ser as ruas de manhattan ao som dos velvet underground.

existe, em liars, uma capacidade quase única de manifestar uma posição vanguardista no rock actual. os liars trilharam um caminho que encontra agora novos desenvolvimentos. é ainda cedo para dizer o que quer que seja em relação às consequências, uma vez que, na minha opinião, este é apenas o segundo capítulo de uma estória que promete muito. a experimentalidade de liars não pode ser discutida sem a percepção de que os rapazes gostam de boa música e que não a esquecem nas linhas do novo álbum.

liars constrói.se de momento em momento, de quebras inesperadas e de inversões de sentido difíceis de aceitar a uma primeira audição. e faz.se também de músicas desenhadas a régua e esquadro, que intercalam os momentos mais agudos de uma composição que só perde por alguma incapacidade de explosão em momentos-chave.

apesar de tudo, um dos melhores até agora.


8.5/10

05 setembro 2007

the stage names, okkervil river




os okkervil river são um fenómeno muito interessante.
dentro daquelas bandas de fazer cortar os pulsos, são os que conseguem imprimir uma toada mais positivista à música que fazem. dotados de um vocalista fantástico (que está a fazer folk-rock como poderia estar a cantar numa discoteca em ibiza), os okkervil river são qualquer coisa entre o extremismo folk dos bright eyes e o indie fortíssimo dos neutral milk hotel.
imaginem os wolf parade sem guitarras eléctricas. ou os hudson wayne bem dispostos.
são, mais ou menos, os okkervil river.
depois de black sheep boy, datado de 2005, the stage names é a rentrée perfeita. longe de alguns clichés que foram assumidos por bandas semelhantes, os okkervil river estão muito mais perto dos belle and sebastian do que dos american music club, como seria de prever pelo percurso que têem seguido, desde stars too small to use.
não esperem grandes veleidades, nem tão pouco uma amostra do que gente mais informada como os liars ou panda bear já fizeram este ano. são canções, belíssimas canções, muito bem arranjadinhas e dentro de um formato que, assumo, me agrada. desde que os radiohead gravaram ok computer que não resisto a um xilofone misturado com guitarras, e os okkervil river sabem fazê.lo com muita graça.
uma boa aposta.

8.2/10

04 setembro 2007

our love to admire, interpol




tem.se dito por aí muito disparate acerca dos interpol. e têem.se escrito barbaridades atrozes sobre our love to admire. eu, que me considero um consumidor compulsivo da música destes rapazes, aviso desde já que, como com qualquer paixão, esta crítica será irredutível nas suas posições.
our love to admire não é o melhor álbum dos interpol, porque antics já foi lançado. sim, é verdade. o melhor álbum dos interpol é antics. mas o mais recente long play não é para ser desconsiderado. aliás existe apenas uma música que não gosto. desde a primeira audição, no concerto do sbsr, que odiei mamooth. curiosamente é daquelas que os críticos mais gostam, o que só corrobora a sua ignorância. e não venham com o disparate de dizerem que os interpol caíram na rede que criaram ou extenderam demasiado o conceito blá blá blá.
our love to admire tem das melhores canções que já ouviram.
desde logo que é possível perceber que a tripleta inicial (pioneer to the falls - no in threesome - the scale) é assustadora. e existem outras belas tiras da quais se destacam, obviamente, all fired up e rest my chemistry (a where is my mind do ano). o single é entusiasmante e as outras músicas que completam o álbum não são más.
por isto tudo porque é que our love to admire tem levado porrada generalizada? porque não é um álbum transgénico. se os músicos metessem para lá umas samples de world music ou fizessem uma cena à M.I.A., com umas misturas incompreensíveis e capazes de provocar vómitos de tão forçadas e mal enjorgadas (era vê.los de olhos regalados no concerto em paredes de coura quando se estava perante uma espécie de ritual de sacríficio onde o microfone estava nas mãos do animal em agonia), os tipos comiam às colheradas.
mas como é um álbum limpinho de rock não passa no teste.
no fundo no fundo eu também acho que os interpol fazem muito melhor do que isto. e a nota reflecte.o. mas achei que era a oportunidade ideal para despir esta tendênciazita que está para aí a nascer.
desculpem o oportunismo.


7.7/10

31 maio 2007

an end has a start, editors


vou pôr os pontos nos i's desde o início: smokers outside the hospital doors, a faixa de abertura de an end has a start, é o melhor single deste ano. pelo menos até vermos outro melhor.
e começar um álbum com uma música assim fortíssima devia ser regra generalizada a todas as bandas que se tentam lançar neste mundo.
eu tenho uma simpatia especial pelos editors. não só porque a minha banda preferida da actualidade são os interpol, e os editors são parecidos, mas também porque me parece que estes tipos fazem canções bem desenhadas e com alguma capacidade de empolgar o ouvinte. no entanto o primeiro álbum não era nada de especial. era, no máximo, giro.
an end has a start é outra conversa. os editors parecem ter ganho uma personalidade mais pessoal e parecem ter construído uma linguagem mais deles. a verificar, sobretudo, em the weight of the world e spiders.
é claro que haverá sempre colagens. é inevitável. as influências são claras e acho que eles também não estão muito interessados em disfarçá.las. não esqueçamos que isto da conversa é muito bonito, mas no final do mês há muito álcool e prostitutas para pagar. mas, apesar de perceber perfeitamente que an end has a start é um álbum que, no extremo da imaginação, já foi escrito pelos eccho & the bunymen ou pelos joy division, sinto que há ali qualquer coisa.
mais uma vez os editors levam o meu benefício da dúvida. se fosse pelo nome que ostentam sentir.me.ia culpado.
é que é de facto muito mau.
mas, de qualquer maneira, an end has a start tem uma grande mais valia: todas as músicas têem o potencial de serem singles da radar.
pena que os she wants revenge tenham aparecido antes...


7.7/10

29 maio 2007

new moon, elliott smith




qualquer pessoa que tende a escrever sobre música com o mínimo de capacidade de abstracção e que não se deixa enveredar pela glorificação massiva dirá que já não se fazem génios. se lerem o contrário desconfiem. porque a verdade é que já está tudo mais ou menos feito, pelo menos até ver. de qualquer maneira há uns que são mais génios do que os outros.
não, o kanye west não é um génio. e não, o justin timberlake também não é um génio. o timbaland também não, não insistam.
elliott smith morreu novo, ainda não se sabe muito bem como. fez uma série de álbuns de estrondosa qualidade. não teve pontos baixos na carreira, se não considerarmos o consumo de drogas e de álcool (o que até ajuda à manutenção de um estatuto de superstar). de facto either/or é um dos melhores álbuns de autor de sempre. leram bem. de sempre. se quiserem, e podem dizer que fui eu que o disse, metam.no no mesmo escaparate de nebraska, de closing time, de highway 61.
não tenham medo. as coisas são o que são e elliott smith é o melhor songwriter da sua época. recuperando o tema de ontem, elliott smith tinha alma. e isso faz toda a diferença no mundo da música.
new moon é o álbum póstumo que recupera uma série músicas não editadas e de versões alternativas a outras que fizeram sucesso nos seis álbuns do músico. a fórmula é muito própria e com este álbum duplo percebemos o potencial sobre o qual estivemos perante. não há ali a procura infrutífera de fórmulas milagrosas nem caprichos estéticos. não há cedências: elliott smith era assim, queria tocar daquela maneira e não se preocupava muito com o resto. como é óbvio não o conheci, mas gosto de acreditar que a música que deixou é o espelho do homem que foi.
e como tal, irrepetível.
new moon não é um álbum pensado num dado momento com a visão de determinado zeitgeist. é um conjunto de canções isoladas. mas quem conhece a fundo a obra de elliott percebe que é hoje como poderia ter sido quando ainda era vivo.
new moon, não sendo transcendente, é exemplar daquilo que é o maior legado da música norte americana entre 94 e 21 de outubro de 03.
aquele fatídico 21 de outubro de 03.

8.5/10

28 maio 2007

boxer, the national



quando peguei no actual do passado sábado (o primeiro suplemento daquela tonelada de papel que é o expresso que me passa pelas mãos) não consegui conter o riso. havia uma reportagem que se referia ao álbum dos the national como uma das melhores obras pop de sempre da história.
eu, que já me habituei ao exagero normalizado na imprensa portuguesa (recordo mais uma vez o célebre caso franz ferdinand), e olhando para o nome da banda, lembrei.me de outro célebre caso - she wants revenge - para formular o meu juízo de valor. até me podia ter lembrado dos the bravery ou dos klaxons, ou daqueles do i predict a riot, ou até mesmo dos arctic monkeys. e é claro que não tinha sequer ouvido uma linha de baixo de boxer. mas isso não me impediu de pensar que estava perante uma grande banhada.
instigado pela curiosidade arranjei o álbum e deixei.o na lista para ouvir num futuro próximo. assim que acabei o new moon de elliott smith (excelente apontamento por sinal) atirei.me ao avanço destes tipos.
ao fim de duas músicas percebi o mais que óbvio. na música ou se tem alma ou não se tem. até se pode tocar tudo muito bem, ir para os palcos com bandeiras de portugal e ser idolatrado por milhares que esperam anos para ver um tipo tocar uma guitarra durante três horas em modo automático.
mas se não existe veracidade na voz, se não existe alma, esqueçam, não estou para aí virado.
e de facto boxer é um álbum cheio de alma. não tem nada a ver com essas bandazecas que sonham acordadas com os joy division e as decalcam até ao tutano. nem tem nada a ver com outras que incorrem numa popzinha sem sal, com vozes afinadinhas mas que podiam estar a vender seguros automóvel como estão a promover uma linguagem que copiam descaradamente de coisas que os anos 80 já nos souberam mostrar. prefiro mil vezes ouvir o final countdown numa discoteca da margem sul do que levar com álbuns amorfos de duvidosa capacidade de empenhamento.
e esta conversa toda porquê? porque os the national fizeram um álbum muito bom. muito honesto, inteligente, sem recurso banal a clichés da pop. a voz faz saltar tinta das paredes: monótona mas convincente. e os rapazes estavam inspirados.
boxer não é o álbum que o actual apregoava. são canções interligadas por um elo comum de superior qualidade estética, mas não é um álbum de referência para a música pop dos próximos vinte anos. para isso ainda há um longo caminho que têem de percorrer.
de qualquer maneira, façam o favor de o descobrir.

7.9/10
ps. mais uma vez não me foi possível disponibilizar a capa do álbum. fica uma fotografia dos tipos.

22 abril 2007

person pitch, panda bear


aqui há uns tempos o noah lennox fez a primeira parte de um concerto dos black dice na zdb. na altura, entre os dois concertos encontrei.o ao pé do bar e troquei com ele um sinal de aprovação. conhecia já os animal collective e pareceu.me um tipo simpático. dias depois acabei por comprar young prayer, o seu promissor disco de estreia.
person pitch é o melhor álbum de 2007. pelo menos até ver. isto é tão ou mais estranho quanto o facto de a música de panda bear não ter uma definição fácil, nem uma catalogação imediata. é feita de colagens e de samplagens às quais recorre um músico sem qualquer problema em utilizar toda e qualquer referência.
porque no final person pitch é um álbum entusiasmante com uma dinâmica em crescendo impressionante que culmina num final arrebatador. pelo meio sucedem.se meia dúzia de canções escritas com uma mesa de misturas, por mais difícil que seja concebê.lo. tudo o resto que se possa escrever (a blogosfera nacional começa a ser um fenómeno de adoração quase unívoca) é rebuscado.
a música de panda bear é fantástica, porque é diferente de tudo ao que nos habituámos nos últimos anos, onde a colagem a standards concebidos numa altura diferente da que vivemos (e não apenas num tempo cronológico) tem ditado as regras que, quando cumpridas à risca, acabam exactamente em nada. as bandas que têm sabido construir o seu próprio percurso (arcade fire, liars, animal collective, interpol, tv on the radio...) começam a ser, justamente, aclamadas como os reis do rock.
person pitch é, nesta óptica, um contributo paralelo.
de refinada qualidade.
9/10

21 abril 2007

armchair apocrypha, andrew bird


se é verdade que, por um lado, andrew bird parece ter perdido um pouco do pio que fez ouvir em the mysterious production of eggs, o seu magistral disco anterior, também será justo dizer que armchair apocrypha tem momentos de um requinte espantoso. de facto o songwriter que espantou a europa há dois anos quando, depois de uma carreira já consolidada e munido de pouco mais do que uma excelente voz, um violino e uma guitarra galgou o circuito normal de alguém que não se define como músico alt-folk mas que também não desgarra as comparações com a geração que lhe deu vida, põs no mundo mais um dos bons álbuns deste ano.
a sensibilidade pop de andrew bird é cada vez mais melhor misturada com uma estética que tem tanto de folk como de música erudita. poderíamos dizer que bird é um dos verdadeiros compositores da pop de hoje. fá.lo porque sabe e não apenas porque o sabe sentir.
mas o seu mais recente long play não é, de todo, igual aos pujantes álbuns de estreia, que seguiam uma linha de coerência formal do princípio ao fim, sem momentos mortos nem canções para encher o espaço destinado ao cd. armchair apocrypha continua a saga de um escritor de canções moderno, com um estilo bastante peculiar mas com uma fonte segura (e de bom gosto) de influências, que lhe permitem sonhar com um lugar entre aqueles que contribuirão para escrever a estória dos anos 00 em canções.
mas até lá é preciso fazer melhor do que em armchair apocrypha. e na minha opinião de ouvinte e, podemos até dizê.lo, de fan, com aquela voz e aquela visão grandiloquente da música não será difícil.
e se o pretexto (já falado pelo próprio) de armchair apochrypha era o de poder fazer uma tournée, agradeço. aliás já assegurei o meu lugar para o ver em maio no são jorge.
mas quero mais. quero um novo the mysterious production of eggs.
quero 10 músicas juntas no mesmo espaço iguais às do final deste álbum.
rápido.
7.5/10
n.b. como poderão constatar a foto apresentada não reporta à capa do álbum. de facto foi impossível encontrar online uma imagem decente para apresentar aqui pelo que optei por uma fotografia de promoção bastante bem sacada.

13 abril 2007

gulag orkestar, beirut


invariavelmente, de tempos a tempos, regresso ao ano que passou.
hoje apenas porque me apaixonei recentemente por este álbum e porque me pesava a consciência se não falasse dele.
confesso que quando ouvi falar de beirut, depois de ler algumas coisas e de ver algumas críticas, me cheirava a um fenómeno do tipo emir kusturica ou, pior ainda, yann tiersen. ou seja, um músico que tenta conciliar world music com pop, no caso do primeiro, com evidente sinal de derrota, ou o caso de um músico world que pega moda e que não sai, não há maneira de sair, do dia a dia das pessoas, das rádios, dos escritos. não tenho nada contra o yann tiersen. simplesmente odeio.o e naquilo em que se transformou. lembro.me também, repentinamente, dos gotan project e do ódio que lhes tenho, e até me sobe o sangue todo à cabeça.
mas beirut não é nada disto. beirut é zach condon, músico de raíz folk bem ao estilo neutral milk hotel que se deve ter apaixonado por uma rapariga da europa do leste. provavelmente esteve em itália, na zona junto às balcãs e contactou com uma croata ou uma húngara ou uma miúda qualquer de um acampamento cigano daquela região.
ou se calhar não foi nada disto.
a verdade é que o rapaz anda a brincar aos músicos itinerantes e fundiu, em gulag orkestar, o que de melhor existe da música daquela zona do globo (os cinco meses em que estive bem perto serviram para sentir que existe ali um grande potencial) com a folk mais alternativa que germinou durante os primeiros anos em que se atirou à guitarra.
no fundo no fundo misturou muito bem todo o caldeirão de influências e desatou um álbum muito interessante, porventura um dos mais surpreendentes do último ano. um álbum genuíno que escorre emoção e que acaba em brilhante fantasia recreativa com caixinha de sons. a voz do homem, essa, é digna de fazer chorar as pedras da calçada. os sopros ajudam, e muito, naquele que é um belíssimo exemplo de como estruturar canções é fácil e eficaz.
e meter.lhe uns pózinhos de inovação dá encanto a estas coisas.
não é brilhante, mas dou.lhe os parabéns.
7.9/10

11 abril 2007

o compreendido, os bastardos e o rancor

passou uma semana desde que bonnie 'prince' billy visitou lisboa. lamento que a crónica só seja lançada hoje mas entretanto meteu.se a páscoa. a falta de críticas nos blogs do costume também ajudaram a adiar a decisão de lançar, ou não, a minha ideia.
confesso que saí do maxime na passada quinta-feira irritadíssimo.
porque isto tem de ser assim: há pessoas que ou deviam ser proibidas de entrar nos concertos ou devia ser dada uma autorização especial por parte do ministério da defesa para o seu abate compulsivo. o maxime é, de longe, a pior sala para um espectáculo deste tipo em que eu já estive em lisboa. até na zdb - se não compreendem a comparação experimentem ir em dia de chuva - se ouve e vê melhor um concerto com algum intimismo como foi o de bonnie 'prince' billy.
para além das qualidades deploráveis guardadas para quem não vai uma hora e meia antes para um concerto, ou para quem não tem uma mesinha à espera, há que gramar com a corja que ou não comprou bilhete ou é demasiado estúpida para perceber que gastou dinheiro em vão. isto porque quem ficou de pé teve de gramar com uma dúzia de otários junto ao bar que não se calaram durante um minuto, mesmo depois de algumas ameaças verbais mais subtis. o constante barulho dos empregados a tirar imperiais ou a polir copos também foi exemplificativo do que resulta querer misturar alhos com bugalhos.
para ajudar a esta festa, aquela primeira parte do espectáculo - faun fables - foi de fugir. não se podia esperar muito de um gaijo igual ao guitarrista dos korn a tocar batuques e flauta e de uma miúda igual àquela que passa a vida no chiado com um cão a pedir dinheiro em honra da sua escolha de vida anarco-dependente. e a rapariga teve mesmo direito a dose dupla, acompanhando o músico norte-americano em todas as músicas do mais recente long play. se em disco essa presença já era, algumas vezes, exasperante (salva.se a produção que disfarça uma vozinha desengonhada), ao vivo é, simplesmente, odioso.
mas bonnie 'prince' billy é a maior referência da música folk norte-americana do momento, e, por isso e porque teve, de facto, momentos de uma genialidade inalcançável por todos os outros músicos que se dizem semelhantes, este foi um grande espectáculo.
já se sabe do que a casa gasta não é?

04 abril 2007

the magic position, patrick wolf


para quem nada conhecia de patrick wolf o início do seu mais recente longplay não é, de maneira alguma, auspicioso. as primeiras músicas de magic position não denotam mais do que alguma vulgaridade e uma incapacidade de atracção imediata. a voz não é nada do outro mundo e o violino de andrew bird é bem mais arguto do que o de wolf. a estética scissor sisters da capa parece algo gasta no contexto da pop contemporânea. as explosões de aperture são algo exaustivas e o recurso à batida electrónica não é mais do que um piscar de olhos à música sexy que se anda para aí a fazer em catadupa.
as coisas alegram um bocadinho com o início da juvenil segunda faixa, que dá título ao álbum e que explicitamente faz saber da felicidade, ou pelo menos de alguma resignação do artista. a popzinha de cabaret à rufus wainwright meeting rua sésamo ganha algum grau de entusiasmo e começa, de facto, a contagiar. as palminhas a marcar o ritmo ajudam. e depois começam.se a ouvir, pela primeira vez, o bom humor e a ironia do estilo deste tipo.
mas é preciso esperar uns bons minutos até as coisas começarem a aquecer, e até percebermos que, ainda que algo inconsistente, o rapaz até tem jeito. the bluebell, a quarta faixa, marca o ponto de viragem de um álbum que tenta encadear todos os momentos que o constituem, mas é nas peças soltas que se revela eficaz. a sequência emocional que culmina com o magnífico augustine, passando pela fortíssima (como o porto) magpie, onde mariane faithfull puxa dos galões de uma carreira recheada, faz lembrar, a uma escala própria, o trabalho de antony. a catarse deste álbum é materializada pela choradeira deste conjunto de cinco canções, sendo que tudo o que se lhe segue funciona como um final alongado que recupera algum do optimismo inicial, sem nunca deixar de piscar o olho à nostalgia que, quer o patrick queira, quer não, lhe está no sangue.
é de facto surpreendente o rumo que the magic position toma depois de um início soçobrante. até parece um álbum de uma pesada carreira.
e não fossem aquelas primeiras três faixas (que gostava de eliminar deste conjunto) e estaríamos perante o melhor álbum feito este ano.
7.5/10

01 abril 2007

a weekend in the city, bloc party




é por causa daquela voz que parece ter saído de qualquer coisa transcendental.
é por causa daquela urgência toda repetida vezes e vezes sem conta, num recurso estilístico que já temos como um dado certo num grupo que ainda só vai no segundo ensaio. e também por que a weekend in the city poderia muito bem ser um manual de quem faz pós-rock sem o medo de parar no momento exacto, de fazer sempre o mesmo tipo de acelerações e retardamentos sem que isso signifique uma perda da capacidade de surpreender o ouvinte. porque parece que estão sempre a fazer a mesma coisa, mas estão sempre a fazê.lo como se fosse a última coisa que farão, e porque aquela voz parece mesmo saída de qualquer coisa que nos transcende.
e também, sim, porque os bloc party fizeram a música da vodafone e foram prostituídos em todos os festivais de verão, sem que daí me tivesse vindo qualquer dor de cabeça ou outro tipo de mal.
porque de cada vez que a weekend in the city começa só me apetece é abanar o pezinho porque tenho a certeza que a minha cama não aguentaria uma sessão de trampolim improvisado.
porque os bloc party têm boas guitarras e sabem utilizá.las. e porque detrás das guitarras, por detrás de tudo o que poderia ser muito bem considerado como pós-rock se não fosse o facto de nunca atingirem o ponto de saturação, está aquela voz que parece a de um miúdo numa loja de brinquedos, que sobe sempre no momento exacto e se desvanece quando, esperando, não o esperamos.
porque já é a terceira vez que escrevo esta crítica e já me esqueci de metade da adjectivação que utilizei nas outras duas.
e porque sim, porque são uma espécie de pecado consciente.


8/10

31 março 2007

jarvis, jarvis cocker



os pulp sempre foram a cara metade de jarvis cocker.
a cara metade que ele sempre parece ter procurado, ou que sempre parece nunca ter querido encontrar, ainda hoje estamos para perceber. a cara de jarvis cocker sempre foi a de um aparat chic ou shock, conforme os casos e o lado para onde acordava.
apesar de ser detestável a forma como se exibia, há duas coisas pelas quais nunca mais será esquecido: a primeira por ter invadido o palco em plenos britt awards quando o michael jackson estava a cantar, e a segunda por ter feito, juntamente com os outros pulp, um dos discos mais brilhantes dos anos 90, aliás, um dos melhores discos para dançar desde que surgiram os new order.
e afinal girava sempre tudo em torno da pop.
é bom ver os pulp regressar. desculpem, jarvis cocker regressar. estes são os pulp mais pop de sempre. ou melhor, o jarvis cocker menos cocky de sempre. jarvis é o alter ego de jarvis cocker, ou seja, este disco é a face mais escondida do cantor, e, por sinal, a melhor. se bem que a postura perdida dos idos anos 90 nos tenha deixado com água na boca (ouvir disco2000 é uma experiência que definitivamente não cansa), a pop há muito tempo que não tinha uma arrumação tão limpinha e uma cor tão branquinha (quase de certeza culpa do sol londrino).
isto tudo para dizer que jarvis foi um dos melhores álbuns de 2006. foi também um dos menos badalados, o que não faz justiça à sua surpreendente capacidade de estimular o ouvinte mais saudosista por um sempre bom punhado de verdadeiras canções.
e como o povo é sereno, às vezes não apetece martelar os ouvidos com a estranheza que nos é tantas vezes familiar.
mas não, não é só fumaça. os pulp estão aí para durar.
desculpem, o jarvis está aí para durar.

7.9/10