31 março 2007

jarvis, jarvis cocker



os pulp sempre foram a cara metade de jarvis cocker.
a cara metade que ele sempre parece ter procurado, ou que sempre parece nunca ter querido encontrar, ainda hoje estamos para perceber. a cara de jarvis cocker sempre foi a de um aparat chic ou shock, conforme os casos e o lado para onde acordava.
apesar de ser detestável a forma como se exibia, há duas coisas pelas quais nunca mais será esquecido: a primeira por ter invadido o palco em plenos britt awards quando o michael jackson estava a cantar, e a segunda por ter feito, juntamente com os outros pulp, um dos discos mais brilhantes dos anos 90, aliás, um dos melhores discos para dançar desde que surgiram os new order.
e afinal girava sempre tudo em torno da pop.
é bom ver os pulp regressar. desculpem, jarvis cocker regressar. estes são os pulp mais pop de sempre. ou melhor, o jarvis cocker menos cocky de sempre. jarvis é o alter ego de jarvis cocker, ou seja, este disco é a face mais escondida do cantor, e, por sinal, a melhor. se bem que a postura perdida dos idos anos 90 nos tenha deixado com água na boca (ouvir disco2000 é uma experiência que definitivamente não cansa), a pop há muito tempo que não tinha uma arrumação tão limpinha e uma cor tão branquinha (quase de certeza culpa do sol londrino).
isto tudo para dizer que jarvis foi um dos melhores álbuns de 2006. foi também um dos menos badalados, o que não faz justiça à sua surpreendente capacidade de estimular o ouvinte mais saudosista por um sempre bom punhado de verdadeiras canções.
e como o povo é sereno, às vezes não apetece martelar os ouvidos com a estranheza que nos é tantas vezes familiar.
mas não, não é só fumaça. os pulp estão aí para durar.
desculpem, o jarvis está aí para durar.

7.9/10

27 março 2007

é uma questão da autocracia a que nos sujeitamos

ontem cumpriu.se o feriado nacional do a new order.
a emissão está de regresso.

25 março 2007

banda sonora para um domingo cheio de nuvens


hissing fauna, are you the destroyer?, of montreal [2007]

24 março 2007

imprescindível, aliás, irrepetível


song of the blackbird, william elliott whitmore [2006]
foi o fim da trilogia de início de carreira de william elliott whitmore. depois de hymns for the hopeless e de ashes to dust, o tríptico macabro e de contornos quase masoquistas deste artista norte americano confirma que estamos perante um conjunto de obras fundamentais para a sobrevivência da música tradicional dos states. e confirma que não são precisos trinta anos de carreira para se fazer música com a beleza da de johnny cash. nem é preciso ter dylan no nome para marcar uma época.
basta ter coragem e uma voz destas.
e tenham a certeza que não vão ouvir os tubarões dizer o mesmo que eu.
porque é de facto um compromisso pessoal que assumo: whitmore é o maior.

prozac

o blog do dia, que descobri recentemente através da sempre aconselhável lista de sítios dedicados à causa que o planeta pop disponibiliza, vem sob a forma de medicamento aplicável com ordem irregular. uma boa aposta, já com quase dois anos de experiência.

23 março 2007

sopa do dia


pieces of the people we love, the rapture [2006]

22 março 2007

ainda a propósito da recuperação do tempo



broken social scene, broken social scene [2005]




the air force, xiu xiu [2006]

a sample of things

foi mais uma vez actualizada a lista de amigos, conhecidos e nem por isso. destaque para o desaparecimento de alguns nem por isso, que simplesmente deixarem de postar, e para o novo blog de raquel pinheiro, a sample of things, ainda em fase de iniciação mas já com alguns bons textos, como seria de esperar de uma "escritora, editora, poeta e tradutora" (traduzido livremente do inglês pelo a new order).

este fim de semana vou andar com isto nos ouvidos




our endless numbered days, iron + wine [2004]





tanglewood numbers, silver jews [2005]





orphans, tom waits [2006]

e o rapaz que até parecia ter bom gosto

há uma excelente entrevista a panda bear no site da mondo bizarre, conduzida pelo autor do big black boat, que deve absolutamente ser lida. ali percebemos que o rapaz, que mora no bairro alto e que é, basicamente, metade criativa dos animal collective, tem uma concepção um bocado estranha do que é fazer boa música.
defende o músico que os 4taste, aqueles dos morangos do açúcar, são uma boa banda.
e depois dá uma explicação que pode convencer muito boa gente que procura nestas ideias apologistas de um kitsch mesmo kitsch uma possibilidade de destacar alguma superioridade intelectual e algum bom gosto moralmente consolidado, mas que a mim só me dá para rir. sinceramente, preferia nunca ter lido esta entrevista.
assim como preferia nunca ter visto metade das referências que o tipo faz em person pitch (com as doce incluídas).
é que person pitch é, de facto, um dos melhores álbuns já produzidos este ano.

20 março 2007

derivado da situação

ainda abismado com a facilidade de descarregar música da internet que esta coisa dos torrents me trouxe, esta semana vão girar com insistência, à espera da melhor crítica:

the good, the bad & the queen, the good, the bad & the queen
a weekend in the city, bloc party
let's get out of this country, camera obscura
some loud thunder, clap your hands say yeah
all of a sudden i miss everyone, explosions in the sky
jarvis, jarvis cocker
drums and guns, low
the magic position, patrick wolf
modern times, bob dylan
grinderman, grinderman
person pitch, panda bear
nighthawks at the dinner, tom waits

18 março 2007

a lei do viciado é a lei mais forte de todas

este fim de semana, como de costume, fui até à fnac abastecer.me de música. ao fim de meia hora de pesquisa acabei por comprar os novos álbuns de grinderman e de panda bear, bem como um velhinho de tom waits. ao todo gastei cerca de quarenta e cinco euros com a brincadeira. cheguei a casa e resolvi seguir o conselho que um amigo me fez quando regressávamos da luz na passada quinta feira. fiz o download de um servidor de torrents, segundo ele, uma cena que está aí a bombar. entretanto, e com meia dúzia de clicks já descarreguei seis álbuns, com uma qualidade muito boa de som. há cerca de três anos que não fazia um download.
por isso, e tendo em conta que não posso, de maneira alguma, comprar tudo o que quero, aumentei a minha colecção com álbuns de camera obscura, bob dylan, bloc party, clap your hands say yeah, low e explosions in the sky.
se quiserem, venham.me prender.
tive uma recaída e estou, de novo, viciado.

16 março 2007

os grandes portugueses e as 7 maravilhas

o programa já causou grande celeuma.
confesso que não acompanhei a fundo nem a votação nem a escolha nem as ridículas apresentações que se basearam sempre em binómios restrospectivos de duvidosa seriedade intelectual. e então quando soube que o botas era um dos finalistas racionalizei, em nome da minha saúde, que aquilo não me interessava para nada.
porque de facto, por mais propostas que me apresentem, não há lugar para uma discussão destas. o vencedor, na minha óptica, é mais do que óbvio.
ele transportou durante anos as aspirações dos portugueses. carregou às costas as agruras de muitos. disfarçou crises, escondeu fragilidades. fez sonhar os portugueses. combateu, lutou pela nação sempre com distinção.
e esta nação não se esquece dele.
o maior português de sempre é o eusébio.
e a escolha das sete maravilhas de portugal é também muito fácil.
numa carreira com mais de mil golos marcados não deve ser difícil encontrar sete obras primas.

poesia na rua


14 março 2007

o imperialismo modernista e o laxismo pós-moderno

eu gosto de intrigas. daquelas à antiga, em que as comadres se zangam todas e a conversa acaba, invariavelmente, na ofensa directa e injustificada. é essa que dá sal às conversas.
é claro que não gosto de fazer parte delas. mas gosto de acompanhar uma boa intriga externa.
a blogosfera nacional, reflexo puro da nossa cultural apetência para a intriga, já nos proporcionou alguns bons exemplos. o abrupto tem estado quase sempre no centro, mas desta vez a coisa envolve, dizem, modernistas e modernistas superados.
é uma questão, portanto, de arquitectura.
acho.
o que se passa é que andou uma grande tourada entre o autor do a barriga de um arquitecto e a autora do vazio de gente (que no seu estilo sempre exasperante e aparentemente emocionalmente sofrido de referências eruditas já conseguiu mandar um belo tiro ao lado a propósito de um título de um livro, o que deve ter enchido a barriga do arquitecto). o vazio de gente é aliás um blog muito interessante. a sua autora não se cansa de demonstrar que lê e que vê filmes. e que teve boas notas na faculdade de arquitectura mas que odeia os professores. gostei sobretudo da parte em que chama prima donna a gonçalo byrne e como em cinco minutos de escrita conseguiu destruir le corbusier.
para juntar à festa o autor do hardblog também mandou umas bocas, que, sem sequer me referir ao conteúdo, foram formalmente muito estimulantes para a conversa. e depois juntou.se ainda o autor d'odespropósito (acho que nunca conheci um blog com uma prosa tão confusa), mas a coisa com ele não pegou.
entretanto acabaram as hostilidades.
e logo agora que os meus dias tinham outra cor.

eu juro que nunca pensei que pudesse chegar o dia desta notícia

neon bible entrou directamente para o segundo lugar do top de vendas nacional, destronando nesse posto a vida que eu escolhi, de tony carreira, que desceu para terceiro.

13 março 2007

façam lá uma retrospectiva

de cada vez que me vêm com a conversa dos lcd soundsystem eu pergunto.me: que música é que eles já fizeram que os new order não tenham gravado?

12 março 2007

iwo jima

há um momento em intervention, dos arcade fire, em que o refrão ganha o corpo de um coro que avisa: you've been working for the church while your family dies.
há um sentimento que atravessa todo o novo filme de clint eastwood, que ganha o corpo de um coro inaudível, que explica como, em ambas as partes que disputam um território ou uma causa, seja lá o que for, existe sempre a dúvida em cada soldado. cada soldado sabe, melhor ou pior, que a guerra o matará. e o soldado, japonês ou americano, foi para lá empurrado.
existe em cartas de iwo jima uma ideia que atravessa todo o filme: os japoneses também tinham a sua guerra. e tinham a sua memória para preservar. tinham, acima de tudo, braços que se destacavam dos corpos com as bombas e veias que soltavam sangue quando eram atingidos pelas balas.
existe, em clint eastwood, a necessidade de ser honesto.
porque o soldado sabe, quase sempre, que a nação justifica uma guerra.
só não queria era ter de morrer por ela.

11 março 2007

neon bible, arcade fire


há um momento em neon bible, depois dos primeiros cinco segundos de intervention, em que percebemos porque é que os arcade fire fizeram correr tanta tinta logo após que funeral chegou aos circuitos. fizeram.no porque são, de facto, um fenómeno raro no panorama internacional rock.
neon bible não é um segundo funeral, era muito difícil. e isso também não lhes interessaria para nada porque acho que são uma banda que procurará sempre o caminho mais previsível para quem tem um palmo de testa: fazer uma outra coisa.
mas neon bible não deixa, por isso, de ser um álbum muito interessante e que, a muitos espaços, alcança a dimensão épica quase barroca do seu antecessor. sabemos que são os arcade fire, mas percebemos que já não são os arcade fire da urgência explosiva e quase desesperada de há três anos atrás.
ainda que mais uma vez os arcade fire tenham recorrido a uma temática bastante precisa. e quando imaginamos este álbum gravado numa pequena capela, faz todo o sentido que as músicas sejam como são. e que os temas sejam os escolhidos. é um álbum perfeito em termos de métrica, de sucessão de músicas, de duração dos temas. neon bible tem uma coerência assombrosa e tem momentos em que a música se reinventa, no sentido em que, recriando as referências menos óbvias aos ouvidos, os arcade fire lançam meia dúzia de pedras que julgo sinceramente recordaremos daqui a muitos anos.
parece.me que estes canadianos são a mais recente banda de futuro culto.
porque os arcade fire já demonstraram que estão na música pela verdade. não cairei no erro de dizer que são os mais honestos. mas são das bandas mais honestas do momento. e das mais criativas também.
façam.me um favor. oiçam este neon bible.
não é, definitivamente, um segundo capítulo do magistral funeral mas é outra coisa quase igualmente espantosa.
8.7/10

10 março 2007

é apenas uma questão de ver bem as datas

em 1977 os warsaw gravam um pequeno lp com cinco faixas. nesse mesmo ano mudam de nome para joy division, aludindo à brigada de prostitutas assim denominada que acompanhava os exércitos nazis. na altura, no meio londrino em que se movimentavam, a questão causou alguma celeuma e a banda foi chamada de neo-fascista. os percurssores daquilo a que hoje chamamos orgulhosamente de pós-punk (que podia muito bem ser toda a música feita depois da morte dos sex pistols) morreu em 1980, com ian curtis. nesse mesmo ano os três restantes elementos formaram os new order e revolucionaram a música dançável. o resto conhecemos e identificamos.
em 1981, os heróis do mar surgem em portugal com música que parece decalcada do primeiro álbum dos new order. são apelidados de neo-fascistas porque recuperaram o primeiro verso do hino nacional e porque falavam de orgulho nacional.
'brava dança' é o documentário que em 2007 reconta a estória dos heróis do mar.